O texto se trata de um artigo de opinião e, portanto, é de inteira responsabilidade de seu autor. As opiniões nele emitidas não estão relacionadas, necessariamente, ao ponto de vista do Distrito do Esporte.
Por Gabriel de Sousa*
Entre os vários entraves que impedem o crescimento dos clubes de futebol do Distrito Federal, a dificuldade de deixar as contas no verde é um dos principais destaques. Ingressos de baixo custo não são suficientes para pagar os custos das partidas, e isso impede um planejamento mais ousado das equipes. É possível então subir os preços?
Essa foi uma das questões levantadas por torcedores nas últimas semanas. Para alguns, Capital e Ceilândia precisam encontrar maneiras de encher o caixa com a disputa da Série D. Caso algum dos clubes alcance a final, ele terá que disputar 24 partidas até a final, prevista para ocorrer no término de setembro. Ou seja, um calendário arrastado de nove meses, a contar com o torneio distrital.
Para os defensores da ideia de se subir o preço dos ingressos, o valor da entrada junto às promoções feitas por Capital e Ceilândia, que buscam cativar mais torcedores, faz com que as partidas não ganhem lucro.
Eles estão certos em abrir os olhos para essa questão. Futebol também é negócio, subir de divisão é um investimento. Além dos resultados positivos dentro de campo, uma boa gestão financeira é imprescindível para o sucesso de um clube.
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Na última partida do Gato Preto no Estádio Abadião, na vitória por 3 a 0 contra o Porto Velho no sábado, 7, o ingresso foi vendido por R$ 35 a inteira e R$ 15 a meia. Houve um aumento de R$ 5 no valor da inteira comparado aos últimos jogos e, desta vez, não houve uma camisa de brinde. A estratégia foi outra: as peças foram entregues em uma promoção realizada por um supermercado patrocinador.
Segundo o boletim financeiro da partida, o público foi de 784 pessoas e a renda foi de R$ 3.920. As despesas, por sua vez, foram de R$ 12.163. Ou seja, três vezes mais do que a receita. Para se ter ideia, o valor é suficiente apenas para pagar a equipe de arbitragem (R$ 3.780).

Já no jogo do Capital no Estádio JK contra o Goiânia, em um empate sem gols no dia 1º de junho, a inteira foi comercializada por R$ 20, enquanto a meia ficou por R$ 10. O público foi de 642 pessoas e a renda foi de R$ 6.770. As despesas totais foram de R$ 10.739,94. Ou seja, faltou quase R$ 4 mil para fechar a conta.
Com os números colocados para a discussão, a solução de aumentar o preço dos ingressos parece ser a mais viável. A matemática é simples: se o torcedor pagar mais, mais dinheiro o clube vai ter para se equilibrar nas contas até o término da Série D.
Não é bem assim. Os que defendem que o preço do ingresso deve aumentar esquecem que, em Brasília, 60 mil pessoas lotam o Mané Garrincha para assistir o Flamengo, desembolsando entre R$ 89 e R$ 358, mas poucos são os aventureiros que abrem um pouco mais a carteira para assistir uma equipe local.
A comparação é esdrúxula, mas é uma forma fácil de explicar os obstáculos do aumento dos tickets como forma de dar saúde financeira aos times. Tal como no cinema, ninguém quer pagar muito para ver um filme de baixa qualidade. Agora, é possível subir o preço quando no cartaz estão as superproduções.
Se o preço dos ingressos aumentar, haverá torcedores fiéis que farão o possível para estar no estádio, mesmo com o gasto a mais. Mas, como eu disse, futebol também é negócio. Poucos torcedores apaixonados que pagam caro não vão pagar a conta. Muitos “descamisados” que pagam barato são os que acabam colocando dinheiro no caixa.
Matematicamente falando, 500 comuns que pagam R$ 20 se torna R$ 10 mil, mas 100 fiéis que pagam R$ 50 se torna R$ 5 mil. E você, torcedor? Se você saísse da arquibancada e tivesse a mesa e a caneta de um clube, quem você iria priorizar?

Projeto de bilheteria no Estádio JK – Foto: Divulgação/Capital
As campanhas feitas por Capital e Ceilândia, que distribuem camisas para a população local, é uma proposta interessante para o crescimento do público nos estádios. Mas, o verdadeiro trunfo para a demanda aumentar está no aprimoramento das equipes.
Ou seja, para subir o preço, é preciso elevar a qualidade. O esporte local precisa se tornar mais atrativo. Assim, como consequência, vai virar mais rentável. Mas aí está o “pulo do gato”: se não há dinheiro, como fazer o padrão crescer?
Neste momento chegamos em um dos motivos pelo qual o futebol candango está na draga há um bom tempo. Ao competir com os grandes clubes, que possuem mais torcida, qualidade e espaço midiático, o público que acompanha as equipes do DF é irrisório. Sem torcida, não tem lucro.
Um horizonte possível que permite que o futebol se torne mais atrativo, possibilitando o aumento dos ingressos, está nos investimentos vindos de fora das bilheterias. Novamente tentando simplificar o “economês”. É preciso ter dinheiro para cobrar mais dinheiro.
* Gabriel de Sousa é jornalista político formado pela Universidade de Brasília e repórter do jornal O Estado de S. Paulo. Apaixonado pelo futebol e pelo seu Ceilândia Esporte Clube, usa esse espaço para analisar o impacto de esporte local no lazer dos moradores do Distrito Federal e o cotidiano das arquibancadas candangas.

Esses fatores dependem de clube para clube, dia 15/03/2025 jogaram pelo campeonato candango Gama X Brasiliense no estádio Bezerrão com o Público: 13.186 pessoas e Renda: R$ 108.145,00. Diferente dos 6 mil reais que os clubes arrecadam, e isso na série D!